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Trio elétrico

Parte frontal de um moderno trio, Salvador, 2007.

Trio elétrico é o nome pelo qual, no Brasil, é chamado o caminhão adaptado com aparelhos de sonorização para a apresentação de música ao vivo, através de alto-falantes, em que são executados samba, frevos e outros ritmos.[1] É um dos maiores fenômenos de massa do Brasil.[2]

Teve sua origem em Salvador, no ano de 1950 e, ao longo das décadas, evoluiu ao ponto de se tornar um dos grandes atrativos do Carnaval da Bahia e outras festas do país.

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OrigensEditar

Dodô e Osmar foram os inventores do trio elétrico do carnaval baiano. Dodô (Antonio Adolfo Nascimento) e Osmar Macedo conheceram-se em um programa de rádio em 1938. Os dois estudavam música e eletrônica e pesquisavam uma forma de amplificar o som dos instrumentos de corda. A amplificação aconteceu dez anos depois e, no carnaval de1950, a dupla saiu em cima de um Ford 1929[3] tocando em instrumentos adaptados as canções da Academia de Frevo do Recife, que se apresentava na ocasião em Salvador. Em um ano fizeram aperfeiçoamentos e incluíram mais um membro, Temístocles Aragão, formando assim o trio elétrico em 1951. No ano seguinte uma empresa de refrigerantes percebeu o enorme sucesso do trio e colocou um caminhãodecorado à disposição dos músicos, inaugurando o formato consagrado por todos os carnavais até hoje[4] .


No começo de 1950 o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife partira para uma apresentação no Rio de Janeiro e, como a embarcação em que viajavam faria uma escala na capital baiana, a Prefeitura convidou-os para realizarem uma apresentação enquanto esta durasse. Assim, no dia 31 de janeiro daquele ano realizam um desfile pelas ruas de Salvador, como registrou Leonardo Dantas Silva: "rico estandarte alçado ao vento, morcego abrindo a multidão, balizas puxando dois cordões (...) tudo ao som de uma fanfarra de 65 músicos que, com seus metais em brasa, viriam naquele momento revolucionar a própria história da música popular brasileira."[5] [6]

Logo a multidão empolgada acompanhava o cortejo, ao qual vieram os próprios músicos se misturar, em grande folia. Rumava o desfile para seu ponto alto na Rua Chile, então a principal artéria da cidade. Mas um incidente no qual um dos músicos pernambucanos se feriu fez com que o grupo interrompesse a apresentação, frustrando os que lá aguardavam sua passagem.[5]

Ilustração do primeiro trio elétrico - a "fobica" de Dodô e Osmar.
Estátua de Dodô e Osmar em Salvador, na Bahia.

Vendo a animação com que o público reagira ao frevo pernambucano, e para suprir a frustração provocada pela interrupção do desfile, Antonio Adolfo Nascimento - Dodô - e seu amigo Osmar Álvares Macêdo adaptam uma "forbica"[7] ligando à Bateria do automóvel um violão e um protótipo de guitarra[8] e saíram pelas ruas executando o ritmo recifense, com enorme sucesso.[5] Estava, assim, instituída a dupla elétrica Dodô e Osmar.


No ano seguinte incorporam mais um músico, inaugurando o nome com que seria imortalizado, de trio elétrico. Em 1959 apresentam-se em Recife, com patrocínio da Coca-Cola, fechando o ciclo das influências carnavalescas.[5]

Os trios vão ampliando em tamanho, na década de 1960, pelo uso de caminhões cada vez maiores. Ligados a blocos identificados por camisões coloridos - as mortalhas - os grupos passam a se isolar dos demais foliões por meio de cordas de separação. Destaca-se, desde então, o Trio Elétrico Tapajós, que é contratado pela prefeitura recifense para se apresentar naquela cidade. Em 1969 a canção Atrás do Trio Elétrico, de Caetano Veloso, divulga em todo o Brasil o fenômeno até então restrito aos dois estados nordestinos.[5]

Na década seguinte tem início a profissionalização, sendo o Trio Tapajós transformado numa empresa, em 1976. No ano 1978 Moraes Moreira leva o cantor para o trio, com a canção Assim pintou Moçambique.[5] Tem início uma nova fase do Carnaval Baiano, e do próprio trio, renovado com a presença vocal, na figura de Moraes, que apresenta sucessos cantados pela primeira vez no "palco móvel" dos trios, como "Varre, Varre Vassourinha" - homenagem ao Clube recifense que deu início a tudo - pois até então os trios eram exclusivamente instrumentais, como relembra o compositor Manno Góes.[9]

Moraes ligara-se ao guitarrista Armandinho, filho de Osmar Macedo, e experimentaram a inovação de trazer um cantor sobre o trio. O artista relata ainda que a ideia surgira anteriormente, em conversa com Gilberto Gil, onde esse observava que seria necessário "botar uma força no trio", pois já não aguentava mais escutar as mesmas coisas sendo tocadas.[10]

Terminologia do trioEditar

Algumas palavras passaram a ter significados específicos, quando ligados ao trio elétrico: foram trieletrizadas.[11] Alguns neologismos do trio:

  • Abadá - Camisa destinada a identificar os integrantes do bloco de trio; somente aqueles que possuem o objeto podem ficar na parte interna das cordas que cercam o bloco.[12]
  • Camarote alternativo - nome que se dá aos apartamentos limítrofes aos circuitos da folia soteropolitana, que durante o carnaval são alugados aos foliões, para dali acompanharem a passagem dos trios.[13]
  • Cordeiro - espécie de segurança, contratado para segurar as cordas que cercam os integrantes do bloco de trio.[12]
  • Pipoca - folião que, não tendo abadá, fica de fora das cordas mas acompanha os trios que passam.[12]

EconomiaEditar

O advento do trio elétrico marca a história do carnaval baiano, a partir de sua criação, dividido-a em 3 fases distintas: o surgimento e crescimento, a partir dos anos 1950; a participação dos blocos-afro e, finalmente, a criação dos blocos de trio.[14]

O trio permitiu a criação de uma nova indústria fora do eixo Rio-São Paulo: até então para algum artista vir a se projetar no cenário cultural havia uma "diáspora" para o Sul, onde buscava de alguma forma o reconhecimento; com o trio, isto passou a ocorrer na própria Bahia, e a partir dela. Antes artistas e grupos como Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Novos Baianos, João Gilberto ou Chiclete com Banana - este último tendo saído e retornado, inicialmente, sem obter resultado - migraram para os estados até então monopolizadores da indústria cultura do Brasil.[14]

A junção do trio, do elemento afrodescendente renovador dos ritmos e da indústria autóctone, o carnaval baiano permitiu o surgimento de novos ritmos da chamada axé music (desde o fricote de Luiz Caldas; dos grupos de axé, como Banda Eva, Asa de Águia, Cheiro de Amor, Chiclete com Banana, Banda Beijo, Babado Novo, Ara Ketu, É o Tchan!, Timbalada, Olodum, e cantores, como Margareth Menezes, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Ricardo Chaves, Netinho, Gilmelândia, Claudia Leitte, Carla Visi, Carla Cristina e outros e grupos como Terra Samba e muitos outros.[14]

Com o trio o carnaval passou a ser também item estratégico para a administração pública e para a economia local, alavancando negócios no turismo cultural, no surgimento e manutenção de novos artistas e organizações (blocos, afoxés, trios "independentes"), produtos (abadás, discos, shows, etc.) até no próprio trio elétrico em si (alugueis e fabricação de trios) - matriz de tudo - movimentando verdadeiras fortunas a cada ano.[14]

CuriosidadesEditar

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Os Trios Elétricos eram montados sobre caminhões trucks, no final dos anos 90 Arsênio Oliveira do Trio Elétrico TOP 69 teve a ideia de montar sobre uma prancha de reboque o Trio Eletrico para ser puxado por um cavalo mecânico criando assim o primeiro Trio Elétrico carreta do país. Na época muitos comentaram que não daria certo a ideia. Ano seguinte, os grandes Trios Elétricos Independentes começaram a tirar suas carrocerias dos caminhões trucks e coloca-las sobre a prancha de reboque. Não havia projeto para o sistema elétrico, Arsênio contratou o técnico Josevaldo dos Santos que com os conhecimentos adquiridos na Indústria, e e informações do técnico em Som Clodoaldo Campos,dando inicio as normas e cálculos para um sistema seguro, introduzindo proteções e uma melhor redistribuição de cargas através de tomadas montadas em réguas com barramentos elétricos, balanceadas e protegidas contra surtos e transientes, foi implantada os quadros de disjuntores por circuito e feito o primeiro projeto elétrico do Trio, que antes era apenas um gerador e 04 disjuntores, hoje o sistema e feito com 02 geradores e proteções individuais de carga.

Interação do públicoEditar

Embora o crescimento do trio tenha permitido a criação de uma nova indústria de relativa importância na Bahia, sua essência permanece na relação entre o artista e o folião; a este respeito Betinho, músico filho de Osmar Macedo, declarou: "Quando a gente está tocando em cima do trio e vê aquele negão pulando lá embaixo... De repente, o negão pensa que você está tocando para ele dançar, mas não é. Ele é que está dançando para você tocar. É ele quem está lhe dando toda a informação de que você precisa para suingar. É uma troca muito feliz. Porque, de repente, você faz isso e depois vê a praça toda dançando igual ao negão. Quer dizer: ele mandou para você e você mandou para o povo."[2]

Efeitos auditivos e restriçõesEditar

Nos anos 1960 os amplificadores usados tinham uma potência de 100 watts. Nos anos 1970 atingiam 20 a 30 mil watts, possuindo dez anos mais tarde valores entre 100 a 500 mil watts, capazes de provocarem danos à audição, sobretudo dos músicos.[15]

A pressão sonora sofrida pelos músicos do trio superam aos de músicos de rock e de orquestras, resultando tal exposição em sintomas como dor de cabeça, sensação de plenitude auditiva e tontura, além da presença de zumbidos com a perda da capacidade auditiva. Tais efeitos tornam necessárias medidas de proteção auricular por parte dos profissionais que tocam sobre os trios.[15]

Também entre os foliões e ouvintes involuntários (tais como moradores próximos ao trajeto dos trios) estão sujeitos aos efeitos nocivos do volume sonoro a que estão expostos, merecendo cuidados.[16]

Algumas cidades históricas têm proibido os trios em suas ruas, visando proteger os prédios das fortes vibrações causadas pela potência sonora excessiva, a exemplo da mineira Tiradentes e das goianas Pirenópolis e Goiás.[17]

CitaçõesEditar

Já num álbum de 1969 Caetano Veloso vaticinava: "Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu" (in: "Atrás do trio elétrico", do álbum Caetano Veloso). Na canção "Trio Elétrico" Caetano faz um jogo poético: "o trio eletro-sol rompeu no meio-di, no meio-dia"[18] "O trio elétrico, para quem é baiano, é uma coisa muito forte... Acho que nem dá para explicar. Eletricidade, música elétrica, para mim, vai ser sempre o trio elétrico." - Moraes Moreira[10]

Em 2009 a cantora Gilmelândia lançou a faixa "Rua" em homenagem aos 60 anos do trio, onde canta "Vem atras de mim / Venha atras do trio / Do caminhão / Levanta mão / E tira o pé do chão". Em 2010 Carlinhos Brown também lançou uma canção para homenagear os 60 anos do trio, intitulada "Parente do Avião", em que o refrão repete: "Ele é sexy / Ele é sexy / Ele é sexy / Ele é sexagenário", e o define, mais adiante: "O trio é de ninguém / O trio é regional / O trio é federal / O trio é o Brasil / Internacional". A canção conta com a participação de importantes nomes da axé music como Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Margareth Menezes, Armandinho, Claudia Leitte & Luiz Caldas[19]

Referências

  1. Dicionário Aurélio, verbete trio - elétrico
  2. a b Jorge Moutinho (1999). Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar: a resistência do som da velha guitarra baiana “Cadernos do Colóquio 1998”, do Programa de Pós-Graduação em Música do Centro de Letras e Artes da Universidade do Rio de Janeiro, pp. 55-60.
  3. (em inglês)The origins of the Trio Eletrico in Bahia
  4. [1]
  5. a b c d e f Felipe Ferreira. O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. [S.l.]: Ediouro Publicações, 2004. 388 e seg. pp. ISBN 8500014814
  6. Nota: o autor refere-se ao ano deste fato como sendo 1951; ocorre, entretanto, que diversas outras fontes dão-no como tendo sido em 1950 - razão pela qual corrigiu-se, aqui no verbete, a data do surgimento do trio elétrico.
  7. Nota: Apelido dado ao carro Ford Bigode
  8. Nota: o "pau elétrico" - hoje chamado de Guitarra baiana, criada portanto antes da "invenção" da guitarra elétrica
  9. Almir Chediak. Choro, Volume 1. [S.l.]: Irmãos Vitale, 2007. 136 pp. ISBN 8577360040
  10. a b Ana Maria Bahiana. Nada será como antes: MPB anos 70 - 30 anos depois. [S.l.]: Senac, 2006. 256 pp. ISBN 8587864947
  11. Rede Bahia (2010). Domingo no RBR TV Bahia. Página visitada em 23/10/2010.
  12. a b c Elaine Patrícia Cruz (16/02/2010). Homenageados do carnaval deste ano, trios elétricos atraem multidões em Salvador Agência Brasil. Página visitada em 23/10/2010.
  13. Elaine Patrícia Cruz (13/02/2010). Para curtir carnaval em Salvador, vale até alugar camarote alternativo Agência Brasil. Página visitada em 23/10/2010.
  14. a b c d Paulo Miguez (novembro de 1998). Cultura, Festa e Cidade: Uma Estratégia de Desenvolvimento Pós-Industrial para Salvador Revista de Desenvolvimento Econômico, nº 1, pág. 41 a 48. Página visitada em 22/10/2010.
  15. a b Iêda Chaves Pacheco Russo, Teresa M. Momensohn Santos, Bárbara Brady Busgaib, Francisco José V. Osterne (Novembro - Dezembro de 1995). Um estudo comparativo sobre os efeitos da exposição à música em músicos de trios elétricos Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 2131 - Vol. 61, Edição 6. Página visitada em 22/10/2010.
  16. Nelson Caldas, Fábio Lessa, Silvio Caldas Neto (Maio - Junho de 1997). Lazer como risco à saúde - o ruído dos trios elétricos e a audição Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 1898 - Vol. 63, Edição 3. Página visitada em 22/10/2010.
  17. Leandra Felipe (17/2/2010). Carnaval de Goiás não permitiu trios elétricos no centro histórico Agência Brasil. Página visitada em 23/10/2010.
  18. Almir Chediak, Caetano Veloso. Caetano Veloso Songbook, volume I. 6ª ed. [S.l.]: Irmãos Vitale, 1988. 8; 32 pp. ISBN 8585426438
  19. Carlinhos Brown lança música em homenagem ao trio elétrico na Micareta de Feira A Tarde Online (18/04/2009). Página visitada em 22/10/2010.

BibliografiaEditar

  • 50 anos do trio elétrico - Fred de Góes, Editora Corrupio, 2000, ISBN 8586551082, 168 pág.
  • Sonhos Elétricos - Moraes Moreira, Azougue Editorial, 2011.

Ligações externasEditar

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